Anjos da Ressurreição de Cristo

Nesses textos os anjos são os anunciadores da ressurreição do Senhor Jesus e pedem às mulheres que anunciem aos discípulos essa boa nova.

Anjos da Ressurreição de Cristo

Anjos da Ressurreição de Cristo

1. Diferenças e semelhanças entre os textos[1]

Mateus 28,5-7

5Mas o Anjo, dirigindo-se às mulheres, disse-lhes: “Não temais!

Sei que estais procurando Jesus, o crucificado.

6Ele não está aqui, pois ressuscitou, conforme havia dito.

 Vinde ver o lugar onde ele jazia.

7Ide já contar aos discípulos que ele ressuscitou dos mortos, e que ele vos precede na Galiléia. Lá o vereis.

Vede bem, eu vo-lo disse!”


 

Marcos 16,5-7

5Tendo entrado no túmulo, elas viram um jovem sentado à direita, vestido com uma túnica branca,

e ficaram cheias de espanto.

6Ele, porém, lhes disse: “Não vos espanteis!

Estais procurando Jesus de Nazaré, o crucificado. Ressuscitou, não está aqui.

Vede o lugar onde o puseram. 7Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro que ele vos precede na Galileia. Lá o vereis, como vos tinha dito.”


 

Lucas 24,3-8

3mas, ao entrar, não encontraram o corpo do Senhor Jesus.

4E aconteceu que, estando perplexas com isso, dois homens se postaram diante delas, com veste fulgurante.

5Cheias de medo, inclinaram o rosto para o chão; eles, porém, disseram:

“Por que procurais Aquele que vive entre os mortos? 6Ele não está aqui; ressuscitou.

Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galileia: 7‘É preciso que o Filho do Homem seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia’”.

8E elas se lembraram de suas palavras.


 

Legenda:
Sublinhado: construção própria de Lucas, diferente de Mateus e de Marcos;

Sublinhado e itálico: presente só em Marcos;

Sublinhado e negrito: presente só em Mateus;

Sublinhado, negrito e itálico: semelhante em Marcos e Mateus, com algumas palavras idênticas.

Negrito e itálico: idêntico em Marcos e Lucas;

Negrito: idêntico em Mateus e Marcos;

Itálico: semelhante nos três evangelhos, com poucas diferenças de verbos e disposição de palavras (cf. comentário sobre o problema das diferenças e semelhanças). Mateus omite a narração da entrada das mulheres no túmulo, por exemplo. Lucas omite a ordem de não ter medo (espantar) de Mateus e Marcos e, ao invés de afirmar que as mulheres procuram Jesus (de Nazaré), o crucificado, faz uma pergunta que já é um pré-anúncio da ressurreição:Por que procurais Aquele que vive entre os mortos? (cf. Lc 24,5b) A entrada no túmulo também é descrita com termos bem diferentes em Marcos e em Lucas: Marcos diz: ‘tendo entrado no túmulo’, enquanto a construção de Lucas é mais breve e sucinta: ‘mas, ao entrar’.

2. Comentário Geral

Mateus não narra a entrada das mulheres no túmulo. Em Mateus, o anjo está fora do túmulo sentado na pedra (cf. 28,2), enquanto em Marcos e Lucas o anjo (segundo Marcos) ou os dois homens (segundo Lucas) está/estão no interior do túmulo (cf. Mt 28,5 e Lc 24,3); é lá que se dá o encontro com as mulheres. Em Mateus (v. 5) e Marcos (v. 5), as mulheres vêem apenas um anjo, enquanto Lucas (v. 4) apresenta dois anjos (Lucas fala de dois homens com vestes fulgurantes). A forma de ver os anjos também chama a atenção: Mateus usa a palavra ‘anjo’ (v. 5); Marcos usa a expressão ‘um jovem com uma túnica branca’ (v. 5) e Lucas diz que eram ‘dois homens com veste fulgurante’ (v. 4). Em Mateus e Marcos são os anjos que mostram a ausência do corpo de Jesus no túmulo: ‘vede o lugar onde ele jazia (onde o puseram)’ – cf. Mt 28,6b e Mc 16,6d), pois as mulheres tinham percebido apenas a presença dos anjos, enquanto para Lucas, elas perceberam primeiro a ausência do corpo de Jesus, antes do contato com os anjos (cf. Lc 24,3-4).

Em Marcos o anjo não pede às mulheres que anunciem a ressurreição aos discípulos (cf. Mt 28,7 e Mc 16,7), pede apenas para dizer que Jesus os (vos) precede na Galiléia. Lucas não narra esse pedido. Lucas quer apenas que elas entendam e aceitem a ressurreição, por isso conduz as mulheres à reflexão das palavras de Jesus ao invés de narrar o pedido do anjo (cf. Lucas 24,6-8). Este fato recorda os discípulos de Emaús, quando o Viajante Desconhecido explica, a partir das escrituras, os sofrimentos de Jesus (Lc 24,25-27).

A tradução da Bíblia de Jerusalém ‘Que ele vos precede na Galiléia’ causa dificuldades: precede a quem? Aos discípulos (e a Pedro) ou às mulheres? A concordância verbal nesta tradução está um pouco confusa. O ‘vos precede na Galiléia’ e ‘lá o vereis’ parece (pela concordância com o Ide (vós)) se referir às próprias mulheres com quem o anjo (jovem com túnica branca, homens com vestes fulgurantes) está falando. A tradução da TEB é mais clara neste texto e nos ajuda a compreender melhor o sentido do mesmo. A TEB traduz assim:

- Mc 16,7: “Mas ide dizer aos seus discípulos e a Pedro: ‘Ele vos precede na Galiléia; lá o vereis, como vos disse’”.

- Mt 28,7: Depois, ide depressa dizer a seus discípulos: ‘Ele ressuscitou dos mortos’, e eis que vos precede na Galiléia; lá é que o vereis.

Com essa tradução fica claro que a ordem dos anjos é de que as mulheres anunciem aos discípulos que o Senhor ressuscitou e que os precede na Galileia.

Em Marcos aparece o nome de Pedro no v. 7: “... e a Pedro”, provavelmente para evidenciar que Pedro é o chefe do Colégio Apostólico e destacar o seu papel no plano da salvação.

Há pouquíssima semelhança do texto de Lucas com os demais. Ele faz uma construção totalmente nova, com elementos diferentes dos outros evangelistas.

2.1. O problema das semelhanças e diferenças

Entre Mateus e Marcos há muita semelhança e mesmo muitas palavras e até frases completas idênticas. Lucas constrói praticamente um texto novo. Entre Mateus e Marcos há diferenças apenas de verbos (exceto o v. 5 de Marcos, ao qual Mateus nem faz referência, pois, para ele, as mulheres se encontram com os anjos fora do túmulo (cf. 28,2)) e palavras ou a disposição destas. Por exemplo: Mateus no v. 5 usa o verbo ‘temer’enquanto Mc usa o verbo ‘espantar’ no v. 6. Lucas omite este elemento, dizendo apenas que as mulheres estavam ‘cheias de medo’ no v. 5.

Marcos apresenta um dado a mais sobre a pessoa de Jesus, identificando-o como ‘de Nazaré’ no v. 6b. Isso é importante, pois, para ele, o mesmo ‘de Nazaré’ que morreu é o que ressuscitou; Ele é o Filho de Deus (cf. Mc 1,1 e 15,39); esse dado é omitido tanto por Mateus quanto por Lucas.

Os três evangelistas fazem um jogo de palavras para anunciar a ressurreição: Mateus 28,6a diz: ‘ele não está aqui, pois (falta em Marcos) ressuscitou...’; Marcos 16,6c diz: ‘ressuscitou, não está aqui; e Lucas 24,6a: ‘Ele (falta em Mateus e Marcos) não está aqui; ressuscitou.’ Ao seu texto Mateus acrescenta: ‘...conforme havia dito’, que Marcos omite e Lucas constrói de modo totalmente novo: ‘Lembrai-vos de como vos falou, quando ainda estava na Galiléia. ‘É preciso que o Filho do Homem seja entregue às mãos dos pecadores, seja crucificado, e ressuscite ao terceiro dia’ (cf. Lc 24,6b-7). Aqui Lucas recorda a narrativa da paixão que Mateus e Marcos omitem em sua narração.

2.2. Sobre os anjos

A veste branca (cf. Mc 16,5 e Lc 24,4) é símbolo divino que caracteriza o jovem como um ser celeste; daí decorre o espanto das mulheres quando tomaram consciência de estar diante do sagrado.

Nessas figuras misteriosas as mulheres vêem anjos. A tradição é unânime em afirmar que os anjos são os mensageiros de Deus. Já no AT eles aparecem como os enviados de Deus por excelência (Gn 28,12). O salmo 103,20 apresenta os anjos como os executores das decisões de Deus.

No AT (cf. Jz 13,3) aparece a expressão o anjo do Senhor, indicando, de maneira indireta, uma intervenção do próprio Deus. O NT usa essa expressão no mesmo sentido do AT e apresenta os anjos como os mensageiros ou comissários de Deus (cf. Lc 2,9-10 e Mt 4,6). Em oposição a esses enviados de Deus o NT menciona os anjos de Satã (cf. Mt 25,41) para designar os enviados do Diabo. Em Mt 18,10 os anjos aparecem como guardiões e representantes de certos homens junto de Deus.

Nesses textos eles são os anunciadores da ressurreição do Senhor Jesus e pedem às mulheres que anunciem aos discípulos essa boa nova.

[1] Os textos foram extraídos da antiga tradução da Bíblia de Jerusalém.

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