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Estudo Bíblico

A Criação

A Criação
Pe. Dimar Luiz
Por: Pe. Dimar Luiz
Dia 14 de maio de 2020

Deus criou todas as coisas para manifestar nelas o seu amor. A obra criadora se dá em três momentos: separação, ornamentação e coroamento.

“No princípio, Deus criou o céu e a terra” (Gn 1,1).

A palavra divina, viva e eficaz, deu início a tudo que existe. Deus criou todas as coisas para manifestar nelas o seu amor. A obra criadora se dá em três momentos: separação, ornamentação e coroamento. Nos três primeiros dias, Deus faz a separação de todos os elementos da natureza: luz e trevas, águas superiores e inferiores, terra e mar. A criação é um processo: Deus cria a terra “vazia e uniforme” e depois vai ordenando (separando) todos os elementos. Os dias seguintes são destinados à ornamentação: do firmamento com as luminárias celestes e as estrelas; dos mares com os peixes de todos os tipos; dos espaços com as aves e da terra com os animais domésticos, serpentes e feras. No sexto dia Deus coroa a sua obra com a criação do ser humano (homem = ish e mulher = ishá).

Mas o que é o homem? A Bíblia é a revelação de Deus, mas também revelação do homem, de como Deus o vê.

a) Pó e Carne (Gn 2,7): a matéria não é inferior ao homem, pois nela o homem mergulha suas raízes. O homem é limitado e deve aceitar sua limitação e dar sentido a ela.

b) Ser vivo (Gn 2,7): na matéria encontramos um princípio de vida dado pelo próprio Deus. A vida é dom de Deus à humanidade.

c) Espírito: é o espírito que dá consciência ao composto carne-vida. O espírito capacita o ser humano para a comunicação com Deus, compreensão de si mesmo e das realidades divinas.

d) Imagem e semelhança de Deus (Gn 1,26-27):

- imagem (tselem = cópia, reprodução exata): suscita a presença real daquele que representa. É a representação da realidade.

- semelhança (demut = similitude): leva a considerar como distinto. André e Pedro são semelhantes por serem irmãos, mas distintos um do outro. O ser humano é a representação de Deus (tselem) e ao mesmo tempo é diferente de Deus (demut), não é Deus e sim criatura.

Para compreendermos a realidade humana devemos buscar as raízes do seu ser no próprio Deus. E Deus diz quem ele é:

- Comunidade: Pai, Filho e Espírito Santo (Trindade);

- Amor (1Jo 4,10-21);

- Criador de tudo o que existe.

Estas três características de Deus refletem no ser humano:

a) O homem-comunidade (Gn 1,27): todos os seres são inferiores ao homem (Adam) de forma que em nenhum deles pôde encontrar seu complemento, seu kenegdó. Então Deus mesmo deu ao homem (adam) uma companheira (Gn 2,21-25). Ao encontrar a mulher o homem reconhece a sua identidade, se conhece como o homem (há-adam). Segundo Leloup, “o homem passa do Que coisa para o Quem, ou seja, de um ser objeto para um ser sujeito, quando realiza a complementaridade homem-mulher, quando encontra o outro. Por meio desse encontro, ele torna-se ele mesmo. Sozinho ninguém consegue ser inteiro; esse encontro, esse relacionamento é que nos faz Quem, sujeito, à imagem e semelhança do Sujeito primeiro e princípio de tudo[1].”

O homem não é em nada superior à mulher, são de mesma natureza. O jogo das palavras hebraicas ish e ishá sublinha esta igualdade de natureza entre os dois sexos. Eles estão tão intimamente unidos no plano de Deus que um não poderá chegar à sua plenitude prescindindo do outro. Isto está simbolizado no fato de que antes da mulher aparecer, o homem se sentia sozinho, apesar de sua amizade com Deus.

A comunidade humana é imagem da comunidade divina e o papel da mulher é análogo ao do Espírito Santo, já que Deus fez o homem para dialogar com ele. Para fechar este triângulo criou a mulher para ser a ponte do amor entre o divino e o humano. A mulher é o laço da união entre Deus e o homem como o espírito Santo é o laço entre o Pai e o Filho na Trindade. Essa é a razão porque o Demônio (serpente) vai atacar primeiro a mulher: rompendo a ponte, não há diálogo de comunicação do homem com Deus.

b) O homem-amor: como em Deus encontramos três pessoas e uma só natureza, encontramos no homem e na mulher algo semelhante: são duas pessoas distintas, mas participam da mesma natureza. No entanto, mais do que a natureza, o que une homem e mulher é o amor. O amor é o vínculo de união na Trindade e também entre o homem e a mulher. Ambos foram feitos para o amor. O casal é a imagem mais perfeita da própria Trindade, como dizia São Macário: “Entre Deus e o homem existe o maior parentesco”.

c) O homem co-criador (Gn 1,28): a criação não termina com o sábado. Deus descansa ao confiar seu poder criador ao homem, entregando-lhe a obra de suas mãos (Gn 2,15; Sl 8,7-9; 115,16). Após entregar a criação ao homem o trabalho se tornou essencial. Por ele o homem lavra a terra e a faz produzir frutos cada vez melhores, construindo, com a semente desta terra o novo mundo. Estamos vivendo o sábado da criação no qual Deus descansa entregando a criação ao homem, tornando-o co-criador. Este plano original de Deus é coroado com uma síntese expressada em grau superlativo: “e Deus viu que era muito bom” (Gn.1,31a).

[1] “Na tradição judaica insiste-se no fato de que um homem que não tenha conhecido uma mulher não pode ser chamado “humano”; e o mesmo ocorre em relação à mulher – a alteridade -, o humano masculino chama-se Adão (Adam); e, depois do encontro é chamado há-adam (o homem). Se, a exemplo dos cabalistas, adicionarmos o valor numérico das letras que compõem essas palavras, obteremos para:

- há-adam: hé=5 + aleph=1 + daleth=4 + mem=40 = 50, ou seja, o equivalente numérico do termo mi (mem=40 + yod=10 = 50), que, em hebraico, significa “Quem”; e para:

- Adam, sozinho: aleph=1 + daleth=4 + mem=40 = 45, valor numérico da palavra mah (mem=40 + hé=5 = 45), cujo significado é “Que coisa”.”

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