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Estudo Bíblico

O pecado e suas consequências

O pecado e suas consequências
Pe. Dimar Luiz
Por: Pe. Dimar Luiz
Dia 14 de maio de 2020

O ser humano tinha dois caminhos: o da vida que consistia em viver o plano de Deus na fé e na obediência e o da morte que consistia em viver seu próprio plano não dependendo de Deus.

O plano original de Deus foi transtornado pelo pecado.

O pecado consiste, basicamente, em não depender e não confiar em Deus. “É uma desobediência, uma revolta contra Deus, por vontade de tornar-se ‘como deuses’, conhecendo e determinando o bem e o mal (Gn 3,5).

O pecado é, portanto, ‘amor de si mesmo até o desprezo de Deus’” [1]. O pecado tira Deus do centro da vida humana. Por isso não fere a Deus diretamente. Fere-o à medida que fere aquilo que ele ama (Jr 7,19; Pr 8,36). Pois pecar é tomar a decisão de não ser filho, “de não permitir que seu Pai o ame eficazmente. A ofensa do homem a Deus consiste na privação de sua presença de filho. É uma ofensa ao coração de Deus, por assim dizer. O que Deus pediu ao homem é que se deixe amar por ele, ser Pai com ele. A partir daí, o Pai misericordioso sairá ao encontro do filho que saiu de casa para esconder-se entre as árvores” [2].

O ser humano tinha dois caminhos: o da vida que consistia em viver o plano de Deus na fé e na obediência e o da morte que consistia em viver seu próprio plano não dependendo de Deus. O homem usou indevidamente sua liberdade escolhendo o caminho que o levava para longe de Deus.

De onde vem o mal?

Não vem do homem e sim do Tentador. Não brota do coração do homem e sim da mentira que o Tentador faz para tirar o homem do projeto de Deus. Ouvindo o conselho do demônio o homem escolheu não seguir o plano de Deus. O Tentador falsificou o plano de Deus: “Pelo contrário, Deus sabe que, no dia em que comerdes da árvore, vossos olhos se abrirão, e sereis como Deus, conhecedores do bem e do mal” (Gn 3,5), propondo outro caminho para que o homem alcançasse aquilo que Deus lhe tinha prometido: “Por elas foram-nos concedidos os bens prometidos, os maiores e mais valiosos, a fim de que vos tornásseis participantes da natureza divina, fugindo da corrupção que a concupiscência espalha no mundo” (2Pd 1,4).

O objetivo do Tentador é afastar o ser humano do plano de Deus, por isso mente. O engano (mentira) está não no que (a participação na natureza divina) ele propôs e sim no como (a maneira de alcançar a participação na natureza divina) propôs. É preciso fazer não só o que Deus quer, mas também como e quando ele quiser. Por isso, o projeto original de Deus de equilíbrio e harmonia foi rompido. A primeira frustração veio após comer o fruto, pois ao invés de saciá-lo produziu efeito contrário: o homem tomou consciência que lhe faltava alguma coisa simbolizada pelas vestes. Desde então sempre se sentiu nu: perdeu a Deus, o seu amor, e procura coisas das quais sente falta e apesar de encontrá-las não se sente satisfeito.

Conseqüências do pecado

O afastamento de Deus traz conseqüências terríveis para o ser humano. Estas conseqüências não se fizeram esperar. Eis algumas delas:

- rompimento da aliança com Deus;

- privação da filiação divina;

- desequilíbrio da personalidade (1Pd 2,11; Tg 4,1);

- acusação do cônjuge na comunidade matrimonial=desestrutura familiar;

- proliferação do pecado na vida social simbolizada pelo assassinato de Abel: o outro se torna ameaça e perigo. Sabe-se que tem irmão quando se descobre outro com o mesmo pai. Deus foi excluído como Pai e por isso as pessoas não se sentem mais irmãs;

- a construção do mundo confiada ao homem tornou-se ameaça de destruição para o próprio homem;

- o trabalho tornou-se comércio.

Desde que se desintegrou no seu interior e se afastou de seu Deus o homem começou uma busca “às apalpadelas” para suprimir essas conseqüências do pecado e recuperar seu estado original:

- compromete-se e se entrega a sistemas como capitalismo se escravizando ainda mais;

- põe sua esperança num super-homem que as mãos humanas jamais poderão fabricar;

- busca a solução à margem de Deus em ocultismos, curandeirismos...

O ser humano não encontrou a solução nestas tentativas e se frustrou ainda mais. Estas tentativas atacam os sintomas, mas não destroem a causa. A solução estará em destruir a causa do pecado. Torna-se necessário alguém que estirpe a raiz do mal, mas nenhum ser humano poderia realizar esta obra “porque todos pecaram e estão privados da glória de Deus” (Rm 3,23).

Proliferação do Pecado

O panorama do mundo não melhorava e a maldade do ser humano continuava crescendo. Do coração humano só brotava o mal. Caim concebe o mal em seu próprio coração, diferente de seus pais que foram tentados do exterior. O pecado passa a ser concebido no coração humano: “O Senhor Deus viu o quanto havia crescido a maldade das pessoas na terra e como todos os projetos de seus corações tendiam unicamente para o mal” (Gn 6,5).

Diante disso Deus “arrependeu-se de ter feito o ser humano na terra e ficou com o coração magoado” (Gn 6,6) e decidiu: “Vou exterminar da face da terra o ser humano que criei e, com ele, os animais, o que se move pelo chão e até as aves do céu, pois estou arrependido de os ter feito” (Gn 6,7). Deus se viu obrigado a corrigir e purificar a perversão mediante as águas do dilúvio (Gn 7,17-8,13). Toda a humanidade pecadora foi castigada, exceto a família de Noé “que encontrou graça aos olhos do Senhor” (Gn 6,8). Trata-se de um novo nascimento da humanidade, uma re-criação. Uma nova etapa que Deus dá ao ser humano e Noé é o pai desse novo gênero humano. Nele Deus renova a sua aliança com a humanidade.

Mas o pecado continuou a ser concebido no coração dos filhos de Noé. O dilúvio purificou a humanidade, mas não a libertou da lei do pecado. E mais uma vez a humanidade se afastou de Deus. Saiu da casa paterna para ficar exilado junto aos porcos[3].

Os filhos dos homens tentaram construir uma torre (Gn 11) para chegar até Deus, ser igual a Deus. O orgulho humano continua a crescer. A ordem natural das coisas fica invertida: o homem quer ser igual a Deus, se divinizar por seus próprios meios. É a repetição do drama do Paraíso. E o resultado também é o mesmo: a confusão e o afastamento de Deus. Esta será uma das constantes da História da Salvação. A torre é o símbolo da vã pretensão do homem de recuperar sua antiga união com a divindade.

O homem é incapaz de chegar até Deus por suas próprias forças. Não pode salvar-se a si mesmo. Não é o homem que chega a Deus por seus próprios meios, é Deus que desce ao homem para elevá-lo e santificá-lo.

[1] Catecismo da Igreja Católica 1850.

[2] Flores, Prado J.H. História da Salvação. Ed. Loyola, p. 22.

[3] Esta é uma referência a Lucas 15,15. De acordo com a lei, os porcos eram imundos (Lv 11,2-8; Dt 14,8). O que significava que estes animais não poderiam ser comidos ou usados para o sacrifício. Para se proteger da contaminação, os judeus se quer tocavam em porcos. Rebaixar-se a uma condição de cuidador de porcos era uma grande humilhação para o judeu. Para Lucas o jovem havia chegado a um grau de degradação além da imaginação. Havia chegado ao ‘fundo do poço’.

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