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Métodos de Leitura da Bíblia: Lectio Divina

A Lectio Divina pode assumir diferentes formulações e práticas. Vamos aqui apresentar o que este método de leitura bíblica tem de essencial.

Por Dimar Luiz dia em Artigos visitas: 1033

Métodos de Leitura da Bíblia: Lectio Divina

Trata-se, fundamentalmente, duma leitura crente e orante da Bíblia que encontra as suas raízes no Novo Testamento. Lucas apresenta-nos Jesus a convidar os discípulos de Emaús a reler o Antigo Testamento a partir do acontecimento da Páscoa (Lc 24,13-35). E podemos dizer que os Evangelhos seguem, em grande parte, esta dinâmica. A Lectio Divina pode assumir diferentes formulações e práticas. Vamos aqui apresentar o que este método de leitura bíblica tem de essencial. 

1. Lectio (leitura): Apropriar, situar, respeitar o texto.

Trata-se duma “leitura” em sentido etimológico, isto é, duma “recolha” (de lego), muito mais rica do que um simples “ler”. Porque se trata dum “ler” com a finalidade de “recolher”, não tanto conhecimentos de tipo intelectual quanto o sentido profundo da Palavra: mensagem, sugestões, inspirações.

Esta primeira etapa não é fácil, como poderia parecer à primeira vista. Trata-se duma espécie de visita que fazemos a um amigo: há gestos, amizade, respeito, silêncios, atenção a um determinado cerimonial. Como se trata dum amigo, a leitura é desinteressada, perseverante, quotidiana.

A lectio tem três diferentes níveis:

A) Nível literário: fixar o texto e responder a questões muito simples, como estas: Quem? Onde? Como? Por quê? Que ligação entre texto e contexto?

B) Nível histórico: Procurar o contexto histórico em que o texto foi escrito e analisá-lo sob quatro aspectos: econômico, social, político, ideológico. Descobrir os problemas aos quais o texto pretende dar resposta e que, de algum modo, aparecem ao fundo ou à superfície do texto.

C) Nível teológico: descobrir a mensagem para o homem, nesta situação histórica concreta: como é que o texto a manifesta, modo como as pessoas desse tempo representavam a Deus, como é que Ele Se lhes revelava, como é que o povo vivia esta mensagem.

2. Meditatio (meditação): Ruminar, dialogar, atualizar

Se a Lectio respondia à pergunta: “Que diz o texto?”, a Meditatio pretende responder à pergunta: “Que diz o texto, para mim?” Segundo Guilgo II[1], “a meditação é uma ação da mente que procura com ardor, sob a guia da razão, o conhecimento da verdade escondida”.

Como se faz, concretamente, a Meditatio? Guigo II dizia que é necessário utilizar a razão e o sentido comum para encontrar a verdade escondida no texto. Para isso, é necessário dialogar com o texto, colocando-lhe certas questões, que o levam a entrar no nível da nossa vida:

- Que semelhanças e diferenças existem entre as circunstâncias do texto e as de hoje?

- Conflitos de ontem e de hoje? Que diz o texto à situação de hoje?

- Que mudança de comportamento me inspira no aqui e agora da minha vida pessoal e social?

Um outro modo de atuar o método poderá ser o de ruminar, mastigar o texto, como fez Maria para os acontecimentos que ocorriam à sua volta, até encontrar o que ele me quer dizer (ver Lc 2,19.51; Sl 1,2; Is 26,8). Podemos tentar resumir o texto numa só frase do mesmo, que sirva para repetir, guardar para todo o dia, de modo a servir não só de lema, mas que chegue a fazer parte da vida desse dia. A Meditação bem feita leva-nos à Oração, como a semente leva à planta. 

3. Oratio (oração): Suplicar, louvar, orar

Na Lectio, a pergunta era: Que diz o texto? Na Meditatio, perguntávamos: Que me diz o texto? Agora, a pergunta fundamental é: Que o texto me faz dizer a Deus? Até agora, era o Senhor a falar conosco, a apresentar-nos a Sua proposta; agora, é o momento da nossa resposta à proposta de Deus. Esta é a característica fundamental da oração cristã. E esta minha resposta exprime-se em sentimentos de louvor, súplica, ação de graças, pedido de perdão… Guigo dizia: “A oração é o impulso fervente do coração a Deus, pedindo-lhe que Ele evite os males e nos conceda coisas boas”.

A atitude fundamental da Oração deverá ser, mais uma vez, a de Maria: Faça-se em Mim segundo a Tua Palavra (Lc 1,38). Maria não diz uma palavra da Bíblia, mas uma palavra saída dum coração que, antes, meditou uma Palavra, que lhe purificou o olhar e o coração (Lc 2,19.51). Só um coração purificado pela Meditação da Palavra é capaz de acolhê-la e deixar que ela se torne carne nele - o que aconteceu n’Ela de maneira excelsa e total. Só os que a sentem encarnada na vida são capazes de a rezar, cantando, como fez Maria, no Magnificat (Lc 1,46-55). A Oração tem sempre duas direções: a vertical e a horizontal. É libertadora do orante - em direção a Deus; e é libertadora dos irmãos - em direção aos oprimidos de hoje. 

4. Contemplatio (contemplação): Discernir, agir, saborear

Quando se passa de Oratio à Contemplatio? Alguém disse que a Contemplatio é o que fica nos olhos e no coração, quando acabou a Oratio. É como o fruto da árvore. A Contemplatio é, fundamentalmente, a concentração da minha atenção, não em sentimentos ou em orações, mas na Pessoa de Jesus e na Sua relação com o nosso mundo. Esta, sendo o ponto de chegada de todas as etapas da Lectio Divina, exige um novo começo de todo o processo, isto é, torna-se o ponto de partida para nova Lectio, Meditatio, Oratio. O processo recomeça, sem nunca acabar. Porque há sempre lugar para uma leitura, meditação e oração mais profundas. É aqui que se situa a Contemplatio: um saborear, degustar, um novo modo de ver a vida e o mundo, que são vistos a partir de cima, a partir dos critérios de Deus. Este novo olhar de Deus no orante é a Contemplatio.

A contemplação é “A escada dos monges que penetra as nuvens e procura os segredos do céu”, isto é, antecipa o futuro, dá-nos a visão das coisas a partir de Deus. E acrescenta, a título de resumo das diferentes etapas: “A Leitura procura a doçura bem-aventurada; a Meditação encontra-a; a Oração pede-a e a Contemplação saboreia-a. A Leitura conduz o alimento à boca; a Meditação mastiga-o e digere-o; a Oração verifica o seu gosto e a Contemplação é a doçura que dá a alegria. A Leitura toca a casca, a Meditação penetra no interior, a Oração formula o desejo e a Contemplação atinge o gosto e a doçura; a Contemplação é uma elevação do espírito acima de mim próprio; suspensa em Deus, ela saboreia as alegrias da doçura eterna”.

[1] Abade da Grande Cartucha. Foi ele quem deixou, por volta de 1150, uma apresentação orgânica da Lectio Divina, que tinha o título: “Escada de Jacó – Tratado sobre o método de orar, escada dos monges e escada do Paraíso”.

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